Archives

0

Comments

9cd6890b3733faf6a1ad957b7947040d

0

Comments

Está tudo bem

Tenho dias maus e dias tristes, mas está tudo bem. Está mesmo. Não estou a armar-me em forte, nem a fingir que os contratempos e as dificuldades não fazem mossa. Choro, tenho acessos de mau humor, ninguém me pode dizer nada, fico um vidrinho. Mas depois passa. Às vezes, de forma tão repentina, que até assusta. Basta um clique, uma música, uma inspiração mais demorada, um abraço. Até uma sesta faz maravilhas. E a vida segue, acomodada à segurança de algumas certezas, porque enquanto conhecermos o chão que pisamos, nem tudo está perdido. Não estamos perdidos.

Claro que, às vezes, é bom caminharmos sem rede. A adrenalina é um excelente propulsor para avançarmos e ajuda-nos a sairmos da nossa zona de conforto. É aí que, normalmente, a magia acontece. Aprendemos tanto sobre nós próprios, sobre a matéria de que somos feitos, sobre a força inesgotável que nos move. Improvisamos, erramos, aprendemos, seguimos em frente. Mais crescidos, melhor preparados. E mesmo que altamente frustrados pela quantidade de azares e de percalços com que nos vamos deparando, que teimam em nos deitar abaixo uma e outra vez, temos que ter a capacidade de olhar para trás e perceber “eu sobrevivi até aqui” e valorizar isso mesmo. Admito que gosto de ter tudo sobre controle, mas é dos medos e dos planos falhados que reza a história, ao contrário do que se possa pensar. São eles que nos fazem arregaçar as mangas para alcançarmos aquele objectivo que teima em escapar-se por entre os dedos. Se tivéssemos tudo de mão beijada, se déssemos tudo como garantido, estaríamos à sombra da bananeira. E essa é uma vida que não imagino ser para mim, que gosto de merecer aquilo que conquisto. (Mas não digo que um empurrãozinho bafejado pela sorte aqui e ali não seja bem-vindo.)

Tenho dias maus e dias tristes, mas está tudo bem. Enquanto souber aceitar que a dor, os erros, os recuos e as quedas fazem parte do caminho, que me marcam mas não me definem, está tudo bem. É que posso sangrar com facilidade, mas sou ainda melhor a cicatrizar.

1

Comment

2015

Sou pouco dada a partilhar balanços, não porque não lhes reconheça certos benefícios – e admito que até dou alguma importância à simbologia dos números e das datas – mas porque não tenho um talento inato para condensar doze meses de uma vida num texto rápido. Sinto sempre que fica tanto por dizer… Nada me impede que me estenda em tempo e em palavras, é verdade, mas há coisas que ou saem sem grande polimento ou perdem a espontaneidade. Um balanço, para servir o seu propósito, precisa de honestidade. E a honestidade não se ensaia.

Sempre que me dá um daqueles “vipes” para organizar coisas cá por casa, separo-as por categorias. Se for roupa, arrumo-a de acordo com a estação do ano. Se for papelada, enfio-a no respetivo dossier. Achei que podia fazer o mesmo com experiências e recordações. “Aqui ficam as de 2013, à direita as de 2014 e, neste cantinho, as de 2015.” A ideia não é má, mas simplesmente não funciona. Não se separa por anos civis aquilo que nos marca e nos molda para sempre. É claro que consigo olhar para trás e nomear alguns momentos marcantes: 2015 foi o ano em que passeámos por Amesterdão, Bruges, Gante e Antuérpia. Cresci profissionalmente e fui conquistada pelos melhores colegas do mundo, quando achava que essa seria uma porta que nunca mais voltaria a abrir. Fiz novos amigos, mantive os de sempre (e para sempre) junto ao coração, mesmo que por vezes longe da vista. Retomei amizades que foram interrompidas pelas circunstâncias da vida. A minha avó fez 80 anos e está cada vez mais bonita. Com muito sofrimento, abri mão de alguns projetos, mas passei a ter mais tempo para mim e a estar mais disponível para os meus. Voltei a dormir descansada e fechei feridas que ainda trazia abertas. Fiz (apenas) 30km de bicicleta na ecopista do Dão e inscrevi-me no ginásio. Assisti a concertos bonitos e em ótima companhia, mas aquele com o Manel Cruz, o Samuel Úria e a Ana Bacalhau foi inesquecível. Ouvi o Camané cantar uma música dos Ornatos, no Bons Sons. Foi também aí, em Cem Soldos, que a pele se arrepiou, ao lado da minha pessoa, ao ouvirmos o Barco Negro da Amália, ao piano. Choraminguei de felicidade no casamento de dois amigos queridos e dei colo a duas bebés lindas nos baptizados uma da outra. Vivi a dor de um coração partido como se fosse meu. Fui ao teatro e ao cinema, passei tardes deitada numa manta de piquenique a ler menos livros do que aqueles que gostaria, à beira do Mondego. Tirei fotografias a comida em quase todos os restaurantes a que fui. Vi muitas séries e poucos filmes, mas um deles foi o Birdman às escondidas do rapaz. Andei pendurada entre pinheiros a trinta metros do chão, mesmo cheia de medo. Arrendei uma casa com piscina com uns amigos no Gerês e choveu na maior parte dos dias, em pleno Verão, mas foi uma semana espetacular, até porque o meu irmão foi connosco. Levei uma cacetada das Finanças. Desisti do ginásio. Deixei de roer as unhas. Ainda não foi desta que tirei a carta. Revi todos os episódios da Guerra das Estrelas com o rapaz, enquanto lhe “spoilava” metade da história. Apontei na agenda dois casamentos para 2016 e estou em pulgas para que cheguem Maio e Setembro. Vivi uma descoberta que se transformou no melhor e no pior que me aconteceu em 2015. Redobrei a certeza inabalável de que não poderia pedir uma família mais unida do que esta (fazes falta, avô!), de que tenho a melhor MÃE do mundo e de que ele, a quem aqui trato carinhosamente por “rapaz”, é na verdade o homem da minha vida.

Foi um ano intenso, em que aprendi muito sobre mim mesma. Nesta roleta russa que distribui azares por quem baixa a guarda e se atreve a ser despreocupadamente feliz, faltou pontaria. Acertaram-me de raspão, na carne e na alma, mas não me derrubaram. Como poderiam? Esquecem-se que nunca dispo este escudo impenetrável chamado amor.

Estou pronta para ti, 2016.

0

Comments

Insónias e dramas existenciais

Não sei se já vos disse, mas sou pessoa que sofre horrores com insónias. É verdade que não tenho os hábitos mais saudáveis no que ao sono diz respeito, mas também não é mentira que isto é uma bela de uma pescadinha de rabo na boca. Se não consigo dormir, entretenho-me a mexericar no telemóvel, se mexerico no telemóvel, o meu cérebro não sossega, se o meu cérebro não sossega, o soninho não pega e assim sucessivamente. Ora, quando acabam as vidas no Candy Crush, ponho-me a pensar na morte da bezerra. E divago, divago, divaaago! Numa destas minhas divagações, fiz contas à nossa diferença de idades, minha e do rapaz, que não sendo abismal, também não se fica por meia dúzia de anos. Não que já não soubesse quantos anos nos separam, não tive uma revelação assim do nada, mas se agora mal se nota, daqui a 40 anos posso dizer o mesmo? É que quando chegar à reforma, já o rapaz ultrapassou a sua esperança média de vida há uns anitos. Se estiver vivo, claro. Espera, o quê??? …………………………………………………… Foi neste momento que desatei num choro compulsivo, que só se desculpa porque a privação de sono deixa as pessoas maluquinhas e fora de si. Acordei o rapaz e, entre soluços, expliquei-lhe as minhas preocupações. “Quando me reformar, tu vais morreeeeeer!” Apesar de ter os olhos inundados de lágrimas, ainda consegui perceber no rosto dele a dúvida entre se havia de me consolar ou mandar-me um calduço. Como homem maduro e paciente que é, optou pela primeira opção. Sossegou-me e, finalmente, adormeci.

Uns dias depois, tínhamos a televisão ligada a transmitir o US Open, já que aqui em casa há um aficionado por ténis. Não sou eu, nem os gatos. Entre partidas é costume focarem pessoal famoso nas bancadas. Hoje foi a vez do Sean Connery, que não estando, naturalmente, na sua melhor forma (o último James Bond foi há mais de 40 anos), também não está nada mal para alguém que tem OITENTA E CINCO anos. Dei pulinhos de alegria! Ointenta e cinco anos e a assistir, fresco e fofo, a uma semi-final de um campeonato de ténis em Nova Iorque. Acho que afinal não vou deitar fora os folhetos daquele cruzeiro para a terceira idade. Afinal, sou capaz de ter companhia.

sean-connery-fist-pump-us-open

0

Comments

Amoras

Ir apanhar amoras de vestido rodado e sandalinha no dedo é muito bonito, muito pitoresco, muito Música no Coração (tenho a sensação que não há amoras nos Alpes Austríacos, mas adiante…), mas dizer três palavrões cada vez que uma silva se espeta numa qualquer parte do corpo dá logo cabo do arranjo. Isso e um namorado que nos filma enquanto estamos de rabo para o ar, a mostrar as cuecas, em vez de nos avisar das nossas tristes figuras. Não sei porque estou a escrever no plural. É para nos sentirmos menos parvas, pronto.

940x940xIMG_5693-940x940.jpg.pagespeed.ic.jnvmJqzJMs

0

Comments

O discurso da Natalie

Invistam 20 minutos da vossa vida a ouvir este discurso fantástico da Natalie Portman durante a cerimónia de entrega dos diplomas aos finalistas de Harvard.

Não houve uma semana durante os meus 5 anos na universidade em que não duvidasse de mim e não me sentisse a falhar redondamente nos meus objetivos académicos. Cheguei a não entregar trabalhos praticamente feitos, a levar zero, por achar que não mereciam ser avaliados. Sentia que os meus professores me olhavam como um erro de casting. Nunca me encostei aos meus colegas por preguiça, mas inibi-me muitas vezes de ser mais participativa, tal era o medo de não dar uma para a caixa. Hoje sei que mais vale uma tentativa falhada do que baixar os braços. Quando cheguei a Coimbra e comecei o mestrado, as coisas mudaram um pouco, mas acho que adoptei uma postura determinada mais para me proteger do que por me sentir realmente confiante. Continuo a ter muitas dúvidas sobre o meu futuro, sobre o meu contributo para a área em que escolhi trabalhar, mas estou a anos luz das frustrações de outros tempos. Ouvir alguém que admiramos, alguém realmente bom no que faz, a falar das mesmas inseguranças e a mostrar como podemos fazer dos nossos medos um trampolim para arriscarmos e chegarmos mais longe é quase terapêutico. Mesmo que já tenham acabado o curso há alguns anos, vejam o vídeo na mesma. Vale a pena.