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O Douro

Gosto muito do (meu) Mondego, é o rio que por tantos motivos me transborda o coração, mas o Douro é o Douro. Era este a paisagem que queria mostrar, antes de vos deprimir com as minhas crises existenciais. A vista do nosso quarto, numa escapadinha que nos soube pela vida. :)

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Depois de reler o último texto…

… fiquei com a sensação que o deixei a meio. E é também pela metade que sinto que vivo (vivemos) os assuntos “quentes” do dia-a-dia. Estamos de tal forma embrenhados na escuridão das nossas cavernas, que já temos dificuldade em distinguir, por entre as sombras que nos chegam dos telejornais e das redes sociais, se aquele é o atentado que foi noticiado na semana passada ou se é novo. Se é novo, se está a acontecer, aumentamos o volume, indignamo-nos, partilhamos compulsivamente imagens de solidariedade. Se tem uns dias, expirou a data de validade para reagirmos. A informação e a contra-informação chegam-nos mais depressa do que nunca, ao mesmo tempo que a esquecemos mais depressa do que nunca também. Consumimos tragédias e polémicas como quem debica tremoços. Ainda alguém se lembra dos bombeiros? Da mãe que deitou o filho bebé no chão do aeroporto? Da criança síria retirada dos escombros de um edifício bombardeado em Aleppo? E quem diz Aleppo, diz Gaziantep, Ponte de Sore, Madeira, Niece, Baviera, Bruxelas, Orlando, Istambul… Realmente, como é que há memória que resista? Como é que se faz para que todos estes lugares, estas vidas, não caiam no esquecimento? Ando incomodada com isto… Quero ter uma voz mais ativa, mas ainda não encontrei a melhor maneira para a exprimir. Até lá, agarro-me à esperança de que pequenos gestos, qual bater de asas de uma borboleta, possam fazer a diferença na vida de alguém lá do outro lado do mundo.

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Amesterdão

Agora que acabámos de marcar uma mini-viagem, lembrei-me que deixei o post sobre Amsterdão em águas de bacalhau e não cheguei a publicá-lo. Cá vai disto, então:

Andávamos a suspirar por férias há já algum tempo e acabámos por marcar esta viagem com pouca antecedência para aproveitarmos a companhia e a estadia em casa de uns amigos. Normalmente, andamos a namorar os destinos antes de nos decidirmos e tentamos conjugá-los com vôos baratos, mas Amesterdão surgiu de um impulso.

Sei que o facto de não ter tido muito tempo para criar expetativas ajudou, mas é indiscutível que é uma cidade muito bonita, especialmente nesta altura do ano [fomos em finais de Abril], com tulipas por todo o lado. Tivemos sorte com o tempo, apanhámos umas abertas de sol, só choveu no último dia e apenas por breves momentos. (Antes de partirmos as previsões davam chuva TODOS os dias.) Fartamo-nos de andar, andar, andar. A cada esquina mais um canal, mais uma ponte, algo diferente para apreciar. E tantas, mas tantas bicicletas! Fiquei fã do estilo de vida dos holandeses, do seu sentido prático, da simpatia e da descontração. Esta é, de certeza, uma daquelas capitais europeias onde daria gosto morar. E as casas? Dizem que os holandeses não têm nada a esconder e, realmente, não era comum ver cortinas corridas, antes pelo contrário. Nem nos pisos térreos, mesmo com aquelas janelonas enormes! Não foi uma nem duas vezes que ao espreitar para dentro de uma sala alheia, às vezes até por distração, dei com alguém esparramado num sofá, tranquilo da vida. Qualquer divisão parecia saída de uma revista de decoração, que gosto! (Numa das casas-barco pela qual passámos até um piano de cauda deu para topar. Como é que aquilo lá terá entrado?!) Acho que já compreendo porque é que a maluqueira das meninas nas montras, na Red Light, não lhes faz assim tanta confusão. (A mim fez alguma.)

Passámos ainda pelo museu Van Gogh, pela casa da Anne Frank, pelo mercado das tulipas e vivemos o feriado nacional, o Dia do Rei, vestidos a rigor, cheios de adereços cor-de-laranja. Ficámos mesmo impressionados com o patriotismo dos holandeses. Isso ou a forma como aproveitam fervorosamente qualquer desculpa para festejarem à grande pelas ruas, com música, cerveja, petiscos e vendas de garagem. Passeámos de barco à noite pelos canais, provámos uma tarte de maçã espetacular em Jordaan, um dos bairros mais animados da cidade, e uma cerveja artesanal em Browerij ‘t IJ, um pub colado a um moinho de vento. Também demos um salto ao bar panorâmico da Biblioteca Geral. Amsterdão a perder de vista, tão bonito! E Begijnhof, o noviciado do século XIII, que faz com que pareça que demos um salto no tempo ao cruzarmos a passagem quase secreta que lhe dá acesso.

Enfim, foram tantos os recantos que começo a ter dificuldade em lembrar-me de tudo o que chamou a nossa atenção, mas acho que já dá para terem uma ideia de como Amsterdão é uma cidade com tanto para ver e descobrir. Tivemos muita sorte, porque fomos imensamente bem recebidos e os nossos cicerones foram incansáveis. Regressámos de coração cheio e com dezenas de bolachas de caramelo na bagagem. Sim, bolachas de caramelo, não é nenhum nome de código para substâncias ilícitas. Isso é qu’era bom!

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Bons Sons ´15

No arranque do ano, lá para meados de Janeiro, chegava a boa nova: o Bons Sons ia voltar em 2015. Não foi preciso dizer mais nada, ficou logo ali assente que voltaríamos em Agosto a Cem Soldos. A experiência de 2014 tinha sido tão incrível, que era impensável não voltarmos para viver a aldeia. E, como nós, outras 30 mil pessoas fizeram o mesmo.

Ao início, pareceu-nos que a edição deste ano estava um pouco menos bem organizada do que a do ano passado e já se deixava “contaminar” por algumas pinceladas de mainstream. Não é que não compreenda a necessidade de se estabelecerem algumas parcerias, ainda para mais com os cortes no financiamento que o festival sofreu, mas esta impressão não foi muito além do primeiro dia e logo sentimos que a essência do Bons Sons não se perdera e ainda houve espaço para melhorar. O campismo tinha mais área e, consequentemente, mais sombras. Apesar de não ter estado o calor típico de Agosto (obrigada, São Pedro!!), confesso que poder dormir mais um par de horas de manhã – em 2014, às 9h, já não se podia estar na estufa tenda – foi um forma de não me sentir tão molenga durante o dia. Isso e terem reduzido o número de concertos. Dava para ir de palco em palco (8, no total!), nas calmas, sem ter que se optar por este ou aquele concerto. No meu caso não fez assim taaanta diferença, que eu cá não aguento ver mais do que dois seguidos, as minhas costas e os meus rins começam logo a dar de si, mas para a minha amiga D., que tem uma pedalada que nunca mais acaba, deve ter sido mais tranquilo. :P

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(Fotografia daqui.)

E por falar em amigos, encontrei tantas pessoas queridas, dei tantos abraços, fiz tantas festas a bóbis e bebi tanta sangria, que o meu coração e o meu fígado – por motivos diferentes – ainda estão a recuperar. Ah, e vi quatro estrelas cadentes na primeira noite! Quão mágica foi esta edição, hã?

Estou a ter dificuldade em encontrar faixas decentes de alguns grupos no Youtube (Retimbrar, Enraizarte, Criatura, etc.), por isso deixo-vos uma pianada do Júlio Resende que, por vários motivos, foi um dos momentos mais bonitos do Bons Sons 2015. :) Até para o ano!

Bons Sons ’14

Sou um bocado “molenga” nestas coisas que envolvem tendas, pó, calor, frio, casas-de-banho alheias, multidões, várias horas de pé, etc., e às vezes, por causa disso, perco a vontade de alinhar em certos programas se não tiver alguém que puxe por mim. Felizmente, faço-me rodear pelas pessoas certas, que não me deixam ceder ao comodismo. Por causa delas (dela!), vivi uma experiência sem igual no que toca a festivais de verão. Quando no primeiro dia me trocaram o bilhete por uma pulseira amarela a dizer “Vem viver a aldeia” estava longe de imaginar o quanto me ia dizer esta frase.

Bons Sons '14 | Pedro Sadio Photography

(Fotografia: Pedro Sadio Photography)

Para quem não sabe, o Bons Sons é um festival bienal de música portuguesa, realizado na aldeia de Cem Soldos, concelho de Tomar, com concertos, exposições e atividades para todas as idades. A aldeia é fechada para o evento e todos os habitantes e voluntários movem-se no sentido de proporcionarem aos “festivaleiros” quatro dias de um ambiente como nunca vi igual. As pessoas trocam impressões sem se conhecerem de lado nenhum, partilham petiscos, borrifam-se solidárias com o calor, cantam em uníssono ou completamente descoordenadas, não importa, dançam, aplaudem, abraçam-se, brindam e sorriem, sorriem muito. É impossível não se ser feliz nestas ruas. É impossível não nos sentirmos de tal forma agradecidos e envolvidos pelo que nos estão a proporcionar que aquele gesto tão natural para alguns de atirar com o copo de plástico vazio para o chão a meio de um concerto se torna desconfortável (até porque é raro encontrar alguém sem a sua canequinha de alumínio). As pessoas querem realmente viver a aldeia, tratá-la como sua e sabê-la a ser falada pelas melhores razões. Está limpa, bonita e bem organizada e, apesar de todos os preparativos que antecederam o festival, não perdeu o seu ar pitoresco. Há o ritual da compra do pão pela manhã, da bica depois de almoço, passeios de burros de Miranda, velhotes a conversar nos bancos de madeira do largo da igreja, cães a dormitar ao sol, gatos a espreitar dos telhados. É incrível como conseguem despertar em nós este sentimento de pertença e de orgulho por estarmos, apenas que por uns dias, a fazer parte da comunidade.

Bons Sons 2014

(Fotografia: Pedro Sadio Photography)

Bons Sons 2014

(Fotografia: Pedro Sadio Photography)

Bons Sons '14

(Fotografia: Facebook Bons Sons)

Trocam-se euros por soldos, ao câmbio de 1,50€ por 1 soldo, mas não existe aquela exorbitância de preços comum à maior parte dos festivais. Os quintais dos habitantes da aldeia transformam-se em restaurantes ao ar livre e o cheiro a grelhados é de deixar água na boca. O pessoal adere, consome e sai satisfeito. Pelo sabor (aquela sangria e aquele caldo verde!!), pela simpatia e por saber que as receitas geradas serão aplicadas em iniciativas sociais e culturais que beneficiem a aldeia. Parece que nada é deixado ao acaso no Bons Sons, nada resvala para o “estamos aqui só para ganhar umas massas, beber uns canecos, curtir um som e depois queremos lá saber desta pasmaceira”.

Bons Sons 2014

(Fotografia: Pedro Sadio Photography)

Depois desta descrição dá a ideia que a música fica para segundo plano, mas não é de todo assim. Na verdade, sem a música como elo de ligação seria praticamente impossível que o evento tomasse estas proporções. Deixo-vos um pouco mais abaixo uma canção de uma banda que desconhecia por completo (embora nestas coisas eu seja uma espécie de corno, sou sempre a última a saber/conhecer), mas que se veio a revelar uma excelente surpresa, já colei. :)

Não há dúvidas de que regressarei a Cem Soldos (mas da próxima talvez alugue uma casinha, ‘tsá?), para voltar a viver a aldeia, dar um beijinho ao Sr. José Augusto e resgatar a cadelita que não me deixaram trazer para Coimbra (feios!). Guardem-me uma tixa, por favor, irei buscá-la em 2016. :)