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Bons Sons ’14

Sou um bocado “molenga” nestas coisas que envolvem tendas, pó, calor, frio, casas-de-banho alheias, multidões, várias horas de pé, etc., e às vezes, por causa disso, perco a vontade de alinhar em certos programas se não tiver alguém que puxe por mim. Felizmente, faço-me rodear pelas pessoas certas, que não me deixam ceder ao comodismo. Por causa delas (dela!), vivi uma experiência sem igual no que toca a festivais de verão. Quando no primeiro dia me trocaram o bilhete por uma pulseira amarela a dizer “Vem viver a aldeia” estava longe de imaginar o quanto me ia dizer esta frase.

Bons Sons '14 | Pedro Sadio Photography

(Fotografia: Pedro Sadio Photography)

Para quem não sabe, o Bons Sons é um festival bienal de música portuguesa, realizado na aldeia de Cem Soldos, concelho de Tomar, com concertos, exposições e atividades para todas as idades. A aldeia é fechada para o evento e todos os habitantes e voluntários movem-se no sentido de proporcionarem aos “festivaleiros” quatro dias de um ambiente como nunca vi igual. As pessoas trocam impressões sem se conhecerem de lado nenhum, partilham petiscos, borrifam-se solidárias com o calor, cantam em uníssono ou completamente descoordenadas, não importa, dançam, aplaudem, abraçam-se, brindam e sorriem, sorriem muito. É impossível não se ser feliz nestas ruas. É impossível não nos sentirmos de tal forma agradecidos e envolvidos pelo que nos estão a proporcionar que aquele gesto tão natural para alguns de atirar com o copo de plástico vazio para o chão a meio de um concerto se torna desconfortável (até porque é raro encontrar alguém sem a sua canequinha de alumínio). As pessoas querem realmente viver a aldeia, tratá-la como sua e sabê-la a ser falada pelas melhores razões. Está limpa, bonita e bem organizada e, apesar de todos os preparativos que antecederam o festival, não perdeu o seu ar pitoresco. Há o ritual da compra do pão pela manhã, da bica depois de almoço, passeios de burros de Miranda, velhotes a conversar nos bancos de madeira do largo da igreja, cães a dormitar ao sol, gatos a espreitar dos telhados. É incrível como conseguem despertar em nós este sentimento de pertença e de orgulho por estarmos, apenas que por uns dias, a fazer parte da comunidade.

Bons Sons 2014

(Fotografia: Pedro Sadio Photography)

Bons Sons 2014

(Fotografia: Pedro Sadio Photography)

Bons Sons '14

(Fotografia: Facebook Bons Sons)

Trocam-se euros por soldos, ao câmbio de 1,50€ por 1 soldo, mas não existe aquela exorbitância de preços comum à maior parte dos festivais. Os quintais dos habitantes da aldeia transformam-se em restaurantes ao ar livre e o cheiro a grelhados é de deixar água na boca. O pessoal adere, consome e sai satisfeito. Pelo sabor (aquela sangria e aquele caldo verde!!), pela simpatia e por saber que as receitas geradas serão aplicadas em iniciativas sociais e culturais que beneficiem a aldeia. Parece que nada é deixado ao acaso no Bons Sons, nada resvala para o “estamos aqui só para ganhar umas massas, beber uns canecos, curtir um som e depois queremos lá saber desta pasmaceira”.

Bons Sons 2014

(Fotografia: Pedro Sadio Photography)

Depois desta descrição dá a ideia que a música fica para segundo plano, mas não é de todo assim. Na verdade, sem a música como elo de ligação seria praticamente impossível que o evento tomasse estas proporções. Deixo-vos um pouco mais abaixo uma canção de uma banda que desconhecia por completo (embora nestas coisas eu seja uma espécie de corno, sou sempre a última a saber/conhecer), mas que se veio a revelar uma excelente surpresa, já colei. :)

Não há dúvidas de que regressarei a Cem Soldos (mas da próxima talvez alugue uma casinha, ‘tsá?), para voltar a viver a aldeia, dar um beijinho ao Sr. José Augusto e resgatar a cadelita que não me deixaram trazer para Coimbra (feios!). Guardem-me uma tixa, por favor, irei buscá-la em 2016. :)